04 Janeiro 2006

Fascismo antitabagista

Finalmente um assunto em que discordo com toda e cada uma linha escrita pelo meu muitíssimo estimado camarada Professor Massano Cardoso. Os fumadores são viciados, e além disso são vítimas da hipocrisia do Estado. A indignação que o Professor revela por se sugerir a comparticipação em medicamentos que ajudem a deixar de fumar não é acompanhada por semelhante indignação relativamente a medicamentos que ajudem as mulheres a deixar de ter filhos nem toxicodependentes a deixarem de se injectar. Para estes últimos, a compreensão e vontade de ajudar é total. E muito bem, acrescento.

Se existe uma quase unanimidade em achar que um consumidor de drogas duras, que vive à margem da Lei, que rouba com violência, que se prostitui, que vive a sua vida na marginalidade, deve ser ajudado, porque não a mesma atitude com quem é viciado em tabaco, e que ao contrário do marginal, vê o seu vício promovido hipocritamente pelo Estado que ainda por cima arrecada consideráveis impostos com isso? Argumenta o meu caro Professor que se um fumador tem dinheiro para comprar tabaco, também deve ter dinheiro para comprar medicamentos que o ajudem a deixar de fumar. Contra-argumento eu que o toxicodependente também tem dinheiro para se drogar...

Sejamos claros: O Estado sempre promoveu o consumo de tabaco, a sociedade só há pouco tempo é que começou a aperceber-se dos enormes malefícios deste. Até aqui, durante décadas a fio, o acto de fumar sempre foi visto como uma forma de emancipação e de chegada à idade adulta, portanto, com respeito pelo fumador, nunca tendo havido em momento algum qualquer tipo de repressão social ou legal.

Sejamos coerentes: Eu fumador, contribuo com mais impostos que um não-fumador. É falso que gaste mais dinheiro ao Estado com cuidados de saúde. Um não-fumador hipertenso e obeso que se alimenta de fast-food gera mais despesa. A vida agitada em que vivemos hoje gera mais despesa em medicamentos anti-stress e anti-depressivos. Aceitarei os argumentos punitivos do meu caro Professor, quando a par da ilegalização do tabaco se fecharem por decreto os restaurantes McDonalds e se reduzir o horário de trabalho para 10 horas semanais.

Até lá, exijo que o Estado assuma as suas responsabilidades comigo, dado que há décadas que é um traficante de droga e me drogou, arrecadando com isso chorudas receitas, tal como os dealers que à porta dos liceus aliciam os jovens no consumo de heroína.

E caro Professor, os fumadores são doentes sim! O problema é que não andam por aí com as veias dos braços em carne viva, mas sim a pagar impostos de que todos beneficiam. Menos os próprios.

At 1/04/2006 1:20 AM, Blogger cmonteiro

Dado que o Professor Massano Cardoso teve algumas dificuldades logísticas em colocar aqui um comentário, passo a transcrever a sua resposta ao meu post:

"Meus caros amigos

A escolha de ser fumador ou não fumador é um acto pessoal. Cada um faz a opção que bem entender. É livre. Não sou adepto do fascismo da saúde. Pelo contrário, tenho sido um de muitos poucos que luta contra quaisquer medidas coercivas ou segregacionistas. Já denunciei em várias reuniões e conferências esta posição. No tocante aos seus argumentos há pelo menos um que eu discordo frontalmente, até porque tem sido estudado ao longo dos anos. Os impostos que os fumadores pagam não cobrem, nem de perto nem de longe, os prejuízos causados pelo mesmo. Não esqueçam que a principal causa de morte evitável a nível mundial (35% dos casos) é da responsabilidade do tabaco. Repito 35%!
O estado é hipócrita? Claro que é! Um dealer? Certo. O tabagismo é uma toxicodependência legalizada há muitos anos. Houve alturas em que os fumadores eram perseguidos e vítimas de sanções horríveis, tal como a morte por enforcamento, esquartejamento, entrega aos inimigos, tal como fazia o famoso Sultão Murad IV de Constantinopla no século XVII. Não sou defensor do “muradismo”, mas convenhamos que a prática do tabagismo além dos efeitos graves em cada um dos fumadores, contribui para a morte e sofrimento de muitos, mas mesmo muitos tais como os fumadores passivos. Mas não fica por aqui, as evidências científicas mais recentes ainda vão mais longe. A tal ponto que se começa a imputar ao tabaco uma acção epigenética, ou seja, os filhos e os netos que não fumem e cujos pais ou avós foram fumadores provocam alterações do ADN que se perpetuam à descendência contribuindo para o aparecimento de doenças motivadas pelo comportamento dos seus antecessores. É verdade e muito preocupante este último facto. Os prejuízos causados pelo tabaco não se limitam ao próprio ou os que são apanhados no novelo de fumo mas também aos descendentes e não só da primeira geração!
A comparticipação do tratamento não faz qualquer sentido. É óbvio. É elementar. Comparar com mulheres que não querem ter filhos…enfim, é forte. A tentativa de descomparticipar os contraceptivos é um erro e só um sentido economicista é que pode explicar a posição. Não querer ter filhos exige uma análise muito complexa e profunda quer sob o ponto de vista humano quer sob o ponto de vista sociológico.

Meus caros e ilustres amigos, o meu primeiro post na Quarta República, 13 de Abril de 2005, focou a história de um inglês – "Harry Elphick". Não defendo o tabaco, mas defendo os direitos dos fumadores a serem tratados convenientemente e em pé de igualdade com os não fumadores.

Procedo à sua transcrição do meu primeiro post:

"Harry Elphick"



Em 17 de Agosto de 1993 um homem a quem foi recusado efectuar testes para a realização de um bypass cardíaco morreu, vítima de enfarte. A recusa baseou-se no facto de ser fumador. Só lhe faziam os exames se deixasse de fumar. Perante esta exigência acabou por abandonar o vício o que permitiu ao seu médico marcar para o dia 19 de Agosto a realização dos testes. Tarde demais.
O caso de Harry Elphick desencadeou um vivo debate no Reino Unido. Até que ponto os médicos podem tomar atitudes destas? A exigência do clínico baseou-se em conceitos moralistas e não em critérios médicos. É certo que o tabaco é um importante factor de risco cardiovascular e não só. É certo que muitas pessoas precisam de cuidados terapêuticos. É certo que os custos com os cuidados de saúde aumentam de forma exponencial. Mas não é correcto cercear cuidados com base em princípios que violem os direitos dos seres humanos.
Ao fim de mais de uma década, as autoridades de saúde britânicas propõem que não sejam ministrados tratamentos médicos aos doentes que recusem modificar os seus estilos de vida não saudáveis. Assim, se um fumador recusar abandonar os seus hábitos, é-lhe vedada a cirurgia cardíaca, a menos que faça uma promessa nesse sentido.
A moralização da medicina é um perigo real. Um dia poderá acontecer que uma pessoa não tenha acesso ao tratamento, porque, no entender do médico (?) moralista, bebe álcool, fuma, não tomou os respectivos cuidados nas suas relações sexuais, não usava o capacete de protecção no local de trabalho, continua a praticar exercícios violentos (já é a segunda vez que parte a perna a fazer esqui!), continua a ser um desbragado à mesa, passa a maior parte do tempo sentado face ao televisor (já tinha sido avisado de que tinha que exercitar o corpito). Se os “doentes-desviantes” encontrarem um médico “pecador”, talvez tenham sorte, senão…
Combater estilos de vida não saudáveis é uma obrigação dos responsáveis. Proibi-los ou tomar atitudes discriminatórias é um erro e um sério perigo. O melhor é alterar aquele princípio de que ninguém deverá ser discriminado em função da raça, sexo, idade, religião, estado socioeconómico, acrescentando-lhe: ”nem em função dos seus vícios públicos ou privados”. Se este último aspecto tivesse sido tomado em linha de conta talvez Harry Elphick não tivesse falecido aos 47 anos de idade….


Tive a percepção ou a intuição de que a minha abordagem ao tema “-Fumadores? Coitados são doentes” iria despoletar algumas reacções, e confesso que estava à vossa espera! Mas quer queiram quer temos de combater este mau hábito e proteger os não fumadores.

A propósito e para terminar, quando falo de tabaco sei do que falo, porque fui um fumador dos mais loucos e compulsivos que já deve ter existido e fumei durante muitos anos. Mas, um dia, numa altura de intenso stress da minha vida académica quando faltava 5 minutos para a meia-noite de 31 de Dezembro de 1983 fumei o meu último cigarro. E ainda hoje sonho que fumo um cigarrito
de vez em quando. Mas só em sonhos…

Salvador Massano Cardoso"

 

At 1/04/2006 1:45 AM, Blogger cmonteiro

Caro Professor,

Uma resposta à sua altura, como esperava. Fabulosa mesmo.

Mas ou não consegui perceber, ou não me explica, porque é que não há-de um fumador ser ajudado pelo Estado que o incentivou, ou pelo menos não o impediu, de se tornar um viciado.

2º - Os impostos do tabaco, e impostos sobre receitas do tabaco pagam os cuidados com as 35% de mortes evitáveis? Penso que pagam e sobram largamente, caso contrário o Estado ilegalizava já o comércio de tabaco. Como tal, a medida é puramente de juízo moral sobre terceiros.

3º Estou ciente dos malefícios do tabaco. Mas a sociedade estará alerta para os malefícios do cozido à portuguesa? E do Big Mac? Acredite que lhe digo isto sem qualquer intenção de o levar menos a sério!

Volto a insistir no meu ponto inicial, já que nos outros - consequências do tabaco na saúde - não o posso rebater porque concordo em absoluto (apesar de me lembrar de uns estudos que diziam que a história dos fumadores passivos estava por provar), e que é: Trata-se de uma questão, em meu entender, de pura reprovação moral. E aqui, pergunto porque é que a mim, cidadão de bem, cumpridor e pagador de impostos, vítima do Estado ao qual paga impostos adicionais, me é recusada ajuda, e a outros cidadãos incumpridores, criminosos e marginais é prestado auxílio (e bem, reforço esta ideia) por parte do mesmo Estado?

 

At 1/04/2006 12:23 PM, Blogger Salvador Massano Cardoso

Caro cmonteiro

O fumador é ajudado pelo Estado. Se adoecer tem os mesmos direitos que um não-fumador.
Os impostos que o Estado arrecada são imediatos e dão muito jeito. Os prejuízos causados pelo tabaco não são imediatos, são a médio e a longo prazo e diluem-se entre as outras situações clínicas. Logo é fácil de compreender que os políticos, na sua visão curta e imediata, preferem os benefícios a curto prazo descurando os de longo prazo, os quais iriam ser colhidos por outros… Esta é uma razão para que o Estado não ilegalize o tabaco. Aliás, se o fizesse originaria cá um burburinho dos diabos; atentado contra os direitos, as liberdades e as garantias individuais, etc. etc.
Quanto aos malefícios do Big Mac informo que neste momento está em curso campanhas idênticas às do tabaco por parte dos cidadãos quando começaram a aperceber-se dos malefícios induzidos pelo mesmo. Inclusive já há, nos E.U.A. vários processos colocados por pessoas atribuindo a responsabilidade do seu enfarte e da sua diabetes aos Big Mac. É verdade o Big Mac vai transformar-se em algo semelhante ao Big Tobacco. Curiosamente, muitos dos alimentos designados por fast food provocam a nível cerebral algo semelhante à privação de certos produtos tóxicos, mas um dia falaremos sobre este interessante ponto.
Quanto aos malefícios do cozido à portuguesa deve estar a brincar. Quais malefícios, qual quê? Um bom cozido é extremamente saudável, desde que não se abuse…
Quanto à história dos fumadores passivos, que tenho acompanhado desde 1976, data em que um funcionário de uma empresa, salvo erro, chamado Shrimp, colocou a sua empresa em tribunal por permitir que se fumasse no local de trabalho, estudos recentes vieram desfazer quaisquer dúvidas.

Caro cmonteiro

Já que é um cidadão cumpridor e pagador de impostos, ande lá, deixe-se de coisas, largue o cigarro, porque assim poderá pagar por muitos mais anos mais impostos, para bem de todos, a começar por si, obviamente.
Um abraço amigo
Massano Cardoso

 

At 1/04/2006 12:39 PM, Blogger Tonibler

Sim, monteiro! Cada vez que fumas um cigarro estás a pagar impostos e a contribuir para a destruição de valor. PÁRA DE FUMAR!


Cozido faz mal? Devem estar a brincar comigo. O que faz mal, como toda a gente sabe, são os bróculos e a couve-flôr, que trazem micróbios e só devem ser consumidos em pickles, misturados com bife de vaca e molho de natas!Cozido faz mal, humpf!...Talvez aquela fraude que é praticada em alguns cozidos e que se chama nabo! Anda um gajo a pensar que é batata e depois...blagh!

 

At 1/04/2006 2:19 PM, Blogger cmonteiro

OK, retiro a parte do cozido à portuguesa.

Vamos sintetizar já que não vale a pena discutir sobre o "deve" e o "haver" dos impostos sobre o tabaco e dos impostos sobre os lucros do tabaco:

Porquê a não comparticipação pelo Estado em medicamentos ou tratamentos que ajudem a deixar de fumar, dado que o Estado foi responsável pelo incentivo ao vício? É o tabaco um assunto menor nas questões de saúde? Não me parece. Ou são os fumadores (ao que me parece) mais desconsiderados pelo Estado, e nesse caso, porquê?

 

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